Cacos e Cacarecos
Nega Lúcia
Negra doida
Cruzava Sapucaia a tagarelar sozinha, carregando cacos:
Sapato sem par
Bolsa furada
Guarda-chuva quebrado
Frigideira sem cabo
Cobertor rasgado...
O trem
Como a Nega Lúcia, atravessa Sapucaia
Carregando sapatos, sombrinhas, bolsas, casacos...
Me pega pela manhã, inteira;
E me devolve, à noite, aos cacos.
Estações Cruzadas
Encurvado, ele entrou no trem,
Vulto tripé, sobre a bengala.
Acomodou-se lentamente. Mirava o chão.
Ela, feito um raio, entrou também: era cor-de-rosa.
Chupeta na mão. Sentou sobre a mochila e lhe sorriu.
Brilhou o olho do velho e o lábio fremeu.
Trocaram gestos, pequenos sinais. Cruzaram estações.
Eis que vaga um lugar na janela. Ela
Colorida, passa a olhar a rua.
Ele, desbotado, fita o chão.
Shopping Center
O ser amado é como um grande centro de compras:
Encontramos tudo o que precisamos, num mesmo endereço.
Diferentes Noções de Valor e de Uso
Procurei a loja com maior variedade.
Escolhi o modelo de casinha mais adequado
Pedi que retocassem o colorido do suporte.
Adaptei no melhor lugar do pátio.
A corroira preferiu o saco de prendedores-de-roupa.
A La Augusto dos Anjos
Cigarro rima
e combina com
Pigarro
Sarro
Escarro
Catarro...
Minuto de Silêncio
Goteja a tarde, mansamente.
Escoam, devagar, a Ipiranga, e o entorno
Morrer assim, a esta hora...Que estorvo
Foi na Bento, parece, o acidente.
Ao que se sabe, onze anos tinha:
E era Adão. Adão soimente.
Entre vidros quebrados e sirenes
Jazem patéticos, molhados, os velhos tênis.
E assim se esvai uma existência em tenrra idade,
Pelo tráfego, de conhecer sua Eva, impedida.
Perdoa, guri; ora a cidade.
Estação Caminho do Meio
Eu conheço uma Estação disfarçada de estabelecimento bancário.
Desembarquei, e desde então, observo a plataforma de embarque.
A primeira a partir foi a Sônia, levando sua piteira, e o fogo. Choramos todos.
Depoi foi-se o Darío, não sem antes galgar a montanha que traçou p[ara si.
Após foi o Alexandre. depois o Rodrigo. O Adel e o João Carlos foram juntos.
O leivas, ansioso, riscava os dias no calendário. O felin, nos tiraram, numa certa manhã, incerta... Chorei denovo.
Depois partiu a Angela, querendo ficar. A Marli, ao se ir, não sabia se ia, ou se ficava; Já a Maria Ângela queria mesmo era ir.
A Clarice veio, e se foi, como o Demétrius. A Eleonora, a Patrícia, a Pamela, a Miriane e a Ariane. O João Paulo foi beber todas, o Jean contabilizar tudo.
O leonardo e a Érika partiram pr’outros mares. A Rossana e o Tairone pr’outros setores. A talita e a Cássia de um momento pr’outro se foram.
No Meio do Caminho havia uma Estação, havia uma Estação no Meio do Caminhodestas pessoas. Hoje são somentes carimbos e rubricas nos papéis. Mas como dói.
A Graciete vai e vem... E vai...
E desembarcaram: O Eduardo, o Edson, a gerusa, o Renato, o Estevan, o Marcelo, o Décio, o Märcio, o Paulo, a Maria, o Adriano, o Vitor, a Cláudia, o Orlando, a Magda, o Marco Antônio, o Otávio, a Beth, o César, o Cláudio, a Lisiane, a Tamara. o Janssen (sorrsos de felicidade...) Muitos...
A jordana hoje não vem: foi disputar um bilhete num guichê distante.
O imar já está arrumando a sua mala, e me parece que o Hernai e o Luciano já estão com as passagens compradas.
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Nalgum dia eu sairei da Caminho do Meio; mas a Caminho do Meio jamais sairá de mim.
(Escrito em 15/07/2005 na vinda para o trabaho, com vistas a participar do Concurso Poesia no Trem, e co adaptaç~es até esta data, que se fizeram necessárias, e dedicado a cada um de vocês, nestes dois anos de empresa, que completo hoje, muito agradecida a Deus, pois eu queria apenas um emprego, e Ele, em sua infinita bondade comigo, me presenteou com a companhia de vocês)
Em 21/07/2005
Manifsto aos colegas da Caminho do Meio
Com respeito a decisão de cada um, quero dizer que este ano eu não vou fazer greve.
Só não sei dizer ao certo o momento exato em que tomei esta decisão:
Não sei se foi durante o meu primeiro emprego: sete anos entre fibras de lã, um barulho ensurdecedor e um calor de 40 graus.
Ou talvez em algus dos hospitais onde trabalhei, nos plantões de fim de semana, nos natais, pácoas e 31/12 à meia-noite.
Ou no meu último serviço, quando fiquei treze meses desempregada, com 2 faculdades, com mais de 40 anos e uma cara que não ajudava em nada. Eu levava um lanche, e comia sentada nas praças e locais públicos. Caminhava no sol o dia inteiro, e não recebia o suficiente para tomar uma água.
Eu li muito bem o edital do concurso do BB, antes de me inscrever, e o contrato de trabalho, antes de assinar. A empresa tem cumprido ambos, O dia que assim não for, eu vou sair com a mesma consciência tranquila que tive ao entrar, de ter cumprido o que me comprometi fazer.
A totalidade dos funcionários do BB é formada basicamente por dois grupos distintos: aqueles que estão no seu primeiro emprego há pouco tempo e o grupo daqueles que estão há muito tempo no seu primeiro emprego.
Este no foi a primeira vez que ganhei uma dispensa no trabalho para receber uma homenagem no dia das mães.
O BB foi a única empresa que se dispôs a conceder horário diferenciado para que eu pudesse concluir meus estudos.
Como disse outro dia um colega: “Eu posso ter falhado com o BB, mas o BB nunca falhou comigo”.
Eu passei por diferentes empresas, e reconhecendo o meu perfil profissional sei que sempre rendi algum lucro para o empregador, sem nunca antes ter recebido qualquer valor em função disso.
Eu queria, ao cursar Economia, entender como as relações de produção se dão. Concluí, tristemente, que o mode de produção capitalista é como alguém que, para sobreviver alimenta-se das suas próprias entranhas, como uma mãe que se alimenta do próprio filho em seu ventre: Isto é, ele reproduz a si mesmo, e se alimenta do que reproduz.
Quando cursei Sociologia eu sonhava entender como este processo se forma e se dá nas mentes das pessoas.( se é que dá para chamar mente, esta extremidade sub-utilizada do corpo humano)
Nestes últimos anos tenho refletido sobre tudo isto. Se lermos os trabalhos produzidos sobre o assunto, nas duas últimas décadas, percebemos que a capacidade de decisão relativa às relações de classe, com tendência a concentrarem-se cada vez mais em organizações internacionais de poder.
Como o poder mora no mesmo endereço do capital (aquele que sobrevive de comer de suas entranhas), podemos ver que grande parte dos maiores grupos econômicos estão se concentrando no Japão. E o japonês, para quem não sabe, destruído moral e economicamente após a II Guerra, remangou a camisa, baixou a cabeça e trabalhou. Eles entram na justiça contra o patrão que resolve “diminuir”a jornada de trabalho, que gira em torno de 16h diárias. Eles têm o péssimo hábito de se suicidarem quando são demitidos.
São em culturas como esta que estão se concentrando as macro decisões. Com que argumentos uma cultura como a nossa poderia rebater?
Teve um tempo em que eu queria mudar o mundo. Hoje fico feliz quando consigo melhorar alguma coisa para mim. ou para alguém a minha volta.
Eu percebi que num sistema produtivo extremamente individualizante, eu não dito a música: Eu danço.
Sueli
segunda-feira, 19 de maio de 2008
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