Ter ou não ter: Eis a questão
Eu fico mesmo impactada com todo este mistério que é ficar encontrando a cura dentro de si, ministrada pelo poder do Espírito Santo de Deus. Entendendo cada detalhe no emaranhado do novelo que somos, e onde cada ponta do fio vai dar.
Esta madrugada mesmo, eu falava sobre minha primeira guaraná. É maravilhoso comprarmos nossa primeira guaraná, depois de termos comprado todas. Porque somente depois de tomarmos nossa primeira guaraná passamos a entender. Penso que as calorias que a compõem são peça chave para compreendermos o porquê de sermos como somos.
Interessante o fato de perceber que, se não lembro de haver ganhado colo materno, na infância, foi justamente o porque disto que me manteve viva.
Porque não posso ser hipócrita em dizer que não ganhei um colo, e deixar de dizer também que o motivo era relevante: Trouxas enormes de roupa para serem lavadas, panelas pretas pela fuligem do fogão a serem ariadas. Mas não numa máquina de lavar, não num fogam à gás. O tanque era distante da casa cerca de ¼ de Km, e a lembrança que tenho dele é que batia acima da cintura da minha mãe. Enquanto ela lavava roupa ela sempre se molhava da cintura até os pés, porque não tinha outro jeito. Inverno ou verão, a água gelada da fonte, nascida no meio das pedras, lhe endurecia o corpo de frio. E ela lavava muita roupa, todos os dias, antes de ir para a roça. Tinha sempre carangueijos enormes no fundo do tanque... As panelas eram ariadas (ariada: era passada areia para tirar a fuligem) num pocinho dágua que tinha acima da casa.
Eu penso que se fosse hoje, somente estas duas atividades tomariam todo o meu dia. Mas ela trabalhava na roça, fazia comida, arrumava a casa, dava banho, penteava, tratava as galinhas, os patos, tirava leite, limpava as cocheiras, levava os bois pro pasto, limpava o pátio, capinava, cortava lenha de machado (corta até hoje), buscava água na fonte, ia no mato buscar lenha nas costas, recolhia roupa, dobrava roupa, ganhava um filho por ano, costurava nossa roupa (na mão, fazia vestido, casaco, camisa, ...), fazia alcochoado de lã, fazia cerca de arame farpado, ... Eu creio que ela não sabia como se cruzava as pernas, porque eu nunca a via sentada. Ela geralmente comia com o prato na mão, cuidando alguma panela sobre o fogão, sei lá, caminhando de lá pra cá...
A lembrança que tenho dela, era a de uma mulher sempre suada e com pequenas sujeiras nos cabelos... Ela sempre enchugava o suor do rosto com a parte superior do braço, como um homem.
Quando eu acordava de manhã, eu já ouvia a voz dela falando com a junta de bois: Tambero...Minero...
Longe de Deus nós nos tornamos mineiros e tambeiros de minas sem preciosidades e de tambos sem leite.
Tem muitas formas de pegar um filho no colo: ela abraçava do jeito que sabia.
Eu tenho visto muitas mães com o filho no colo: sentada no chão, pedindo esmola. Ou sentada na sua casa mesmo, pernas cruzadas, tomando chimarão, sendo sustentada pelo trabalho dos outros. Tomando seu chimarraozinho, não tendo nenhuma vergonha de pedir: Fulana, tá faltando leite, fralda... Podes me mandar?
Os filhos com a roupa toda descosturada, encardida... Mas no colo.
Chega o frio, não tem um cobertor para se tapar: Irmã, tem uma coberta sobrando? O filho no colo. Não sabem pegar uma agulha, desfiar uma lã... O fogão é à gás, foi ganhado de fulano, a as panelas são encardidas... Mas o filho tá no colo.
A casa tinha uma dispensa (não sei pra que este nome, uma vez que estava sempre vazia). O dispenseiro era ela: Quando eu acordava, ela já tinha subido (porque lá tudo era subindo ou descendo lombas cansativas) até a roça, arrancado a batata ou aipim, descido até a fonte, lavado o barro vermeho, subido até em casa, descascado, colocado no fogão, cortado a lenha, feito o fogo, cozinhado, ajeitado o café...
Só de imaginar cada etapa desta pequena tarefa me cansa até os ossos. Eu quero dizer com isso, que quando eu acordava (eu e os outros uma dúzia de filhos), ela já estava cansada de trabalhar. Porque isto tudo era só o café da manhã: tinha ainda o almoço, o café da tarde, a janta... e o galpão, a roupa suja, a roça, os animais, a casa...
Eu era apenas a filha do meio: ela já vinha a seis filhos rolando esta rotina suave... e rolou por mais seis.
Fazem somente 15 minutos que estou escrevendo sobre isto, e estou saturada desta situação.
Eu desafio quem esteja lendo, não importa quem sejas tu, a tirar um tempo, a ter cabeça, no meio de tudo isto e pegar teus filhos no colo...
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Durante muito tempo me fiz perguntas, e perguntava pra Deus: “Deus, porque a mãe nunca gostou de mim? Porque o Deoclécio gosta mais de um filho que de outro?” E esta primeira guaraná me diz que certas atitudes são uma questão de ter ou não ter. E não: ser ou não ser; eis a questão.
Uma coisa é certa: Ninguém dá daquilo que não tem. E tem certas coisas que não são possíveis de serem compradas ou de me mandar fazer. Não podemos julgar/condenar quem não tem. Mas podemos dar a elas, para que depois que elas tenham possam dividir com os outros, também. Mas para dar a elas precisamos primeiro e antes de tudo, as ter, e só depois dar. Porque disso que falo, nem roubar é possível: Só é possível dar e receber.
Deus acaba de me dar o maior entedimento que se pode ter do Amor (esta palavrinha tão curta, tão falada, tão buscada, tão sofrida, tão boa, ...tão rara): Ele é, antes de tudo, uma atitude, uma ação. Ou melhor dizendo: Duas ações distintas numa: Dar e receber. Ou ainda, mais distintamente: Receber e dar. Pois é necessário ter para dar. E para se ter é preciso que se receba, antes. E pra receber é preciso que alguém dê.
Então o Amor é um processo de osmose: 1- recebo amor de alguém que tenha; 2- Tendo-o, já estou apta para dar. Equilíbrio.
Comumente as primeiras relações se dão entre mãe e filho, a mãe passa seu amor para a criança, a aí se processa na criança a capacidade de amar.
Quando há uma falha neste processo, todo o resto fica falho. Porque as crianças não têm capacidade para entender os porquês, e muito menos terem condições de lidarem com as causas e consequências disso. Tal qual os adultos.
A Bíblia diz que Deus é Amor. É Ele que coloca esta chama em nós. E toda faceta do amor, é uma cara diferente desta mesma chama. Todo tipo de amor que tem dentro de nós, resulta daquele. E a Bíblia diz também que o Amor nunca morre, mas que se esfria.
Então nós somos um forno onde tem uma temperatura que pode ser otimizada. Eu fico pensando se a chave de controle desta chama está fora ou dentro de nós.
Ser ou não ser... Ter ou não ter... Ser e ter...
Recordo, agora, de um fato ocorrido: A Emanuele extraiu um siso, e comprou sorvete para comer, pois tinha que comer alimento gelado. Eu comi o sorvete, e ela me chamou a atenção: Blá. blá, blá... (Naquele mesmo dia eu havia pago quase 1,5 mil Reais pelo tratamento dentário dela).
Eu penso que este fato traduz tudo: Ela tinha razão em cobrar porque comi, e eu não via o mal em comê-lo, porque sempre pensei que as relações humanas são uma questão de um fazer pro outro, na medida em se possa fazer.
O que se faz necessário é respeitar as diferenças: o SER de cada um. Eu devia ter respeitado o sorvete, pois é uma questão de ser, e não do ter (valores que possam ser expressos de alguma forma).
As vezes a reclamação não é o sorvete, mas é a blusa...o calçado...
Entendo, neste instante, que eu usava tudo, da minha mãe, porque usava o suor dela, e aquele suor que sempre tinha no pescoço e nos braços dela, e que ela enchugava no antebraço, como um homem, NÃO TEM DINHEIRO NO MUNDO COM QUE EU POSSA PAGAR. Porque olhamos e esperamos que nossos pais sejam fonte inesgotável de todas as coisas, e nós somos muitas vezes incapazes de oferecer alguma coisa que refresque o suor que eles vertem por nós.
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Oh Cristo, tem misericórdia de mim: Como demoro em perceber o sangue que vertia em ti, por minha causa. O quanto te custou mais que um suor. Não posso pagar.
O quanto dói mais em mim este entendimento, do que entender o peso do suor.
Perdão, Senhor... Obrigado.
Eu te adoro, Senhor, dentro de mim, lá onde eu não aprendi a dizer, meu Jesus. Quando penso em ti, assim, eu só sei chorar, e sei que cada lágrima é uma frase, pra ti, pois vês o meu coração. Como não gostar de ti, Senhor? Eu uso teu suor, teu sangue, teu sorvete, tuas roupas e sapatos e ainda me pegas no colo, Senhor.
Não posso pagar este amor.
Suelisilvânia
Eu fico mesmo impactada com todo este mistério que é ficar encontrando a cura dentro de si, ministrada pelo poder do Espírito Santo de Deus. Entendendo cada detalhe no emaranhado do novelo que somos, e onde cada ponta do fio vai dar.
Esta madrugada mesmo, eu falava sobre minha primeira guaraná. É maravilhoso comprarmos nossa primeira guaraná, depois de termos comprado todas. Porque somente depois de tomarmos nossa primeira guaraná passamos a entender. Penso que as calorias que a compõem são peça chave para compreendermos o porquê de sermos como somos.
Interessante o fato de perceber que, se não lembro de haver ganhado colo materno, na infância, foi justamente o porque disto que me manteve viva.
Porque não posso ser hipócrita em dizer que não ganhei um colo, e deixar de dizer também que o motivo era relevante: Trouxas enormes de roupa para serem lavadas, panelas pretas pela fuligem do fogão a serem ariadas. Mas não numa máquina de lavar, não num fogam à gás. O tanque era distante da casa cerca de ¼ de Km, e a lembrança que tenho dele é que batia acima da cintura da minha mãe. Enquanto ela lavava roupa ela sempre se molhava da cintura até os pés, porque não tinha outro jeito. Inverno ou verão, a água gelada da fonte, nascida no meio das pedras, lhe endurecia o corpo de frio. E ela lavava muita roupa, todos os dias, antes de ir para a roça. Tinha sempre carangueijos enormes no fundo do tanque... As panelas eram ariadas (ariada: era passada areia para tirar a fuligem) num pocinho dágua que tinha acima da casa.
Eu penso que se fosse hoje, somente estas duas atividades tomariam todo o meu dia. Mas ela trabalhava na roça, fazia comida, arrumava a casa, dava banho, penteava, tratava as galinhas, os patos, tirava leite, limpava as cocheiras, levava os bois pro pasto, limpava o pátio, capinava, cortava lenha de machado (corta até hoje), buscava água na fonte, ia no mato buscar lenha nas costas, recolhia roupa, dobrava roupa, ganhava um filho por ano, costurava nossa roupa (na mão, fazia vestido, casaco, camisa, ...), fazia alcochoado de lã, fazia cerca de arame farpado, ... Eu creio que ela não sabia como se cruzava as pernas, porque eu nunca a via sentada. Ela geralmente comia com o prato na mão, cuidando alguma panela sobre o fogão, sei lá, caminhando de lá pra cá...
A lembrança que tenho dela, era a de uma mulher sempre suada e com pequenas sujeiras nos cabelos... Ela sempre enchugava o suor do rosto com a parte superior do braço, como um homem.
Quando eu acordava de manhã, eu já ouvia a voz dela falando com a junta de bois: Tambero...Minero...
Longe de Deus nós nos tornamos mineiros e tambeiros de minas sem preciosidades e de tambos sem leite.
Tem muitas formas de pegar um filho no colo: ela abraçava do jeito que sabia.
Eu tenho visto muitas mães com o filho no colo: sentada no chão, pedindo esmola. Ou sentada na sua casa mesmo, pernas cruzadas, tomando chimarão, sendo sustentada pelo trabalho dos outros. Tomando seu chimarraozinho, não tendo nenhuma vergonha de pedir: Fulana, tá faltando leite, fralda... Podes me mandar?
Os filhos com a roupa toda descosturada, encardida... Mas no colo.
Chega o frio, não tem um cobertor para se tapar: Irmã, tem uma coberta sobrando? O filho no colo. Não sabem pegar uma agulha, desfiar uma lã... O fogão é à gás, foi ganhado de fulano, a as panelas são encardidas... Mas o filho tá no colo.
A casa tinha uma dispensa (não sei pra que este nome, uma vez que estava sempre vazia). O dispenseiro era ela: Quando eu acordava, ela já tinha subido (porque lá tudo era subindo ou descendo lombas cansativas) até a roça, arrancado a batata ou aipim, descido até a fonte, lavado o barro vermeho, subido até em casa, descascado, colocado no fogão, cortado a lenha, feito o fogo, cozinhado, ajeitado o café...
Só de imaginar cada etapa desta pequena tarefa me cansa até os ossos. Eu quero dizer com isso, que quando eu acordava (eu e os outros uma dúzia de filhos), ela já estava cansada de trabalhar. Porque isto tudo era só o café da manhã: tinha ainda o almoço, o café da tarde, a janta... e o galpão, a roupa suja, a roça, os animais, a casa...
Eu era apenas a filha do meio: ela já vinha a seis filhos rolando esta rotina suave... e rolou por mais seis.
Fazem somente 15 minutos que estou escrevendo sobre isto, e estou saturada desta situação.
Eu desafio quem esteja lendo, não importa quem sejas tu, a tirar um tempo, a ter cabeça, no meio de tudo isto e pegar teus filhos no colo...
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Durante muito tempo me fiz perguntas, e perguntava pra Deus: “Deus, porque a mãe nunca gostou de mim? Porque o Deoclécio gosta mais de um filho que de outro?” E esta primeira guaraná me diz que certas atitudes são uma questão de ter ou não ter. E não: ser ou não ser; eis a questão.
Uma coisa é certa: Ninguém dá daquilo que não tem. E tem certas coisas que não são possíveis de serem compradas ou de me mandar fazer. Não podemos julgar/condenar quem não tem. Mas podemos dar a elas, para que depois que elas tenham possam dividir com os outros, também. Mas para dar a elas precisamos primeiro e antes de tudo, as ter, e só depois dar. Porque disso que falo, nem roubar é possível: Só é possível dar e receber.
Deus acaba de me dar o maior entedimento que se pode ter do Amor (esta palavrinha tão curta, tão falada, tão buscada, tão sofrida, tão boa, ...tão rara): Ele é, antes de tudo, uma atitude, uma ação. Ou melhor dizendo: Duas ações distintas numa: Dar e receber. Ou ainda, mais distintamente: Receber e dar. Pois é necessário ter para dar. E para se ter é preciso que se receba, antes. E pra receber é preciso que alguém dê.
Então o Amor é um processo de osmose: 1- recebo amor de alguém que tenha; 2- Tendo-o, já estou apta para dar. Equilíbrio.
Comumente as primeiras relações se dão entre mãe e filho, a mãe passa seu amor para a criança, a aí se processa na criança a capacidade de amar.
Quando há uma falha neste processo, todo o resto fica falho. Porque as crianças não têm capacidade para entender os porquês, e muito menos terem condições de lidarem com as causas e consequências disso. Tal qual os adultos.
A Bíblia diz que Deus é Amor. É Ele que coloca esta chama em nós. E toda faceta do amor, é uma cara diferente desta mesma chama. Todo tipo de amor que tem dentro de nós, resulta daquele. E a Bíblia diz também que o Amor nunca morre, mas que se esfria.
Então nós somos um forno onde tem uma temperatura que pode ser otimizada. Eu fico pensando se a chave de controle desta chama está fora ou dentro de nós.
Ser ou não ser... Ter ou não ter... Ser e ter...
Recordo, agora, de um fato ocorrido: A Emanuele extraiu um siso, e comprou sorvete para comer, pois tinha que comer alimento gelado. Eu comi o sorvete, e ela me chamou a atenção: Blá. blá, blá... (Naquele mesmo dia eu havia pago quase 1,5 mil Reais pelo tratamento dentário dela).
Eu penso que este fato traduz tudo: Ela tinha razão em cobrar porque comi, e eu não via o mal em comê-lo, porque sempre pensei que as relações humanas são uma questão de um fazer pro outro, na medida em se possa fazer.
O que se faz necessário é respeitar as diferenças: o SER de cada um. Eu devia ter respeitado o sorvete, pois é uma questão de ser, e não do ter (valores que possam ser expressos de alguma forma).
As vezes a reclamação não é o sorvete, mas é a blusa...o calçado...
Entendo, neste instante, que eu usava tudo, da minha mãe, porque usava o suor dela, e aquele suor que sempre tinha no pescoço e nos braços dela, e que ela enchugava no antebraço, como um homem, NÃO TEM DINHEIRO NO MUNDO COM QUE EU POSSA PAGAR. Porque olhamos e esperamos que nossos pais sejam fonte inesgotável de todas as coisas, e nós somos muitas vezes incapazes de oferecer alguma coisa que refresque o suor que eles vertem por nós.
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Oh Cristo, tem misericórdia de mim: Como demoro em perceber o sangue que vertia em ti, por minha causa. O quanto te custou mais que um suor. Não posso pagar.
O quanto dói mais em mim este entendimento, do que entender o peso do suor.
Perdão, Senhor... Obrigado.
Eu te adoro, Senhor, dentro de mim, lá onde eu não aprendi a dizer, meu Jesus. Quando penso em ti, assim, eu só sei chorar, e sei que cada lágrima é uma frase, pra ti, pois vês o meu coração. Como não gostar de ti, Senhor? Eu uso teu suor, teu sangue, teu sorvete, tuas roupas e sapatos e ainda me pegas no colo, Senhor.
Não posso pagar este amor.
Suelisilvânia
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