segunda-feira, 19 de maio de 2008

Pra Rosane, mas com cópia pro Djalma, Bicca, Janssen, Estevan e a Jordana.

11/08/2007
Geralmente eu coloco título no que escrevo. Mas para este texto, eu não consegui encontrar um, porque qualquer um poderia ser, e ao mesmo tempo nenhum se adequara o suficiente. Creio que muitas mensagens vão ficar, através dele, mas a que me tocou mais fundo, é o fato do quanto Deus me surpreende a cada dia, a cada momento, com a sua infinita bondade. Destes últimos acontecimentos, Deus me trouxe um entendimento tal, sobre a história da minha vida inteira, e que de uma forma ou outra se confunde/funde com suas histórias, também, que eu resolvi enviar cópia pra vocês.
Quero repartir com vocês um sentimento de liberdade e sossego que sinto dentro de mim, como se fosse um arroz à grega, todo temperado de sentimentos bons e puros que sentimos lá na infância, quando desconhecemos o sofrimento e temos corações puros.
Eu estou vendo a rua, o sol, e não tenho vergonha de dizer pra vocês: Eu hoje estou sentindo uma vontade de voar. Mas lá no alto, nas termais, como um condor, uma águia: sem precisar bater as asas, para que nada atrapalhasse o que sinto. Eu gostaria de ser escritora pra descrever este sentimento. Mas as palavras foram criadas pelo homem.
Somente Deus coloca em nós sentimentos que o homem não descreve, nem entende. Eu levei 45 anos para sentir isto que estou sentindo. Valeu a pena confiar e esperar. Deus é bom.


Pra Rosane, mas com cópia pro Djalma, Bicca, Janssen, Estevan e a Jordana.

Rosane,
Eu poderia começar de diferentes pontos. Mas vou começar do começo.
Estou feliz por estar aqui no computador te escrevendo. Estou sentada numa sala grande e envidraçada, e o sábado está de sol por todos os lados. Mas tem uma claridade dentro de mim que vai além da luz da rua.
Ontem foi um dia especial na minha vida cristã, que nada mais é, do que este envolvimento/caminhada que tenho tido com a pessoa de Jesus.
Uma das coisas que me levaram para este caminho foram as diversas promessas que Deus deixou para todos nós. Tem uma delas que diz que onde nós colocarmos a planta de nossos pés, será nosso. Isto traduzido para o mundo espiritual significa que aqueles por quem orarmos pedindo as bençãos de Deus, Ele ouvirá nossa oração. E em todas os momentos que entro na presença de Deus eu tenho colocado vocês, meus colegas de trabalho, nos meus pedidos.
E o interessante é que neste período eu tenho ouvido críticas ao meu modo de ser.
Como nada é por acaso, no dia em que aconteceu o primeiro encontro de “luluzinhas”, eu pedi desculpas e disse que não iria porque nada tinha a ver comigo. Tu me dissestes: “A Sueli não é mais aquela”. Talvez eu tenha me tornado um ser estranho pra vocês, mas acho que posso me explicar.
Eu quero te falar do dia imediatamente anterior àquele. Quando eu ia para o trabalho eu encontrei na escadaria da estação rodoviária um mendigo. Era só mais um, mas era alguém. Ele estava com a blusa meio levantada e tinha diversas cicatrizes. Algumas cicatrizadas e algumas estavam purgando infecção. Eu fui trabahar, mas aquilo ficou na minha cabeça.
Na volta pra casa ele estava no mesmo lugar. A cara dele tinha um resto de dor antiga. Eu perguntei pra ele: Tu ainda estás aqui? E ele começou a dizer que dormia na rua, que havia levado 11 tiros, no passado (quando se tornara assaltante por ser usuários de drogas) e em conseqüência disso, usava fraldas, etc, etc Eu perguntei se ele queria ir para o Desafio Jovem (Um local de recuperação de usuários de drogas, que conheço), ele aceitou, e eu o troxe comigo. Só pra teres idéia ele deve ter levado uns três minutos só para se colocar de pé, firmado numa bengala. Andava com dificuldade.
Depois descobri: faltava a ponta dos dedos dos pés, pois havia necrozado em decorrência de uma infecção causada por bichos-de-pé, e ele, de dor, cortou fora, com uma faquinha de serra.
Quando ele saiu do meu banheiro (que é a suíte do meu quarto) me disse: “Muito obrigado. Fazia uns 5 meses que eu não tomava um banho” - Eu levei algumas horas limpando o banheiro, depois). Ele colocou roupas limpas, que arrumei com meu irmão, levei ele até o hospital de Sapucaia para os curativos, depois, falando com um, com outro. Ouvindo um não aqui, um não posso ali, conseguimos levá-lo até o Desafio.
As vezes eu olho para o chão ao ouvir uma crítica sobre o fato de estar diferente, e percebo que os pés daquele que me critica estão dentro dum sapato que custou o equivalente ao sustento mensal de uma família de 04 pessoas. Que investimos tanto em coisas que ficam ao nível do chão e que nos impedem de voar pra Deus, pois pesam demais.
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No dia 08/08/2006 eu estava trabalhando no caixa e derrepente eu vi uma luz diferente. Na primeira oportunidade que houve eu liguei pra Emanuele e disse: “Vai acontecer alguma coisa muito boa, eu vi uma grande luz. Ela até me perguntou: “Tá, mas que jeito era, eu tenho alguma coisa a ver com ela?” Eu respondi: “Eu não sei, mas sinto que nós estamos envolvidas nisto”.
No dia seguinte, minha irmã cristã, 6 filhos, que sobrevive de cartão bolsa auxílio do governo, saiu para receber o pagamento de toalhas/lençóis que havia vendido, e uma mãe lhe ofereceu: “Tu não podes levar esta criança e cuidar, uma vez que ela me atrapalha de me divertir?” E o que me emociona, foi o fato dela ter aceito, e no caminho até sua casa ter gasto tudo que recebera, com bico, mamadeira...estas coisas de bebê, pois a criança, apesar de ter alguns meses, estava com a roupinha suja de muitos dias.
Eu cheguei a comentar com meus colegas de trabalho, na manhã seguinte, sobre o fato. Eu, na minha ingenuidade, esperava que algum colega ajudasse com um pacote de fraldas, um bico, um cotonete, sei lá... ... ... ... Nada. Silêncio de obras.
Mas Deus, que fica de pé no céu, pela causa das viúvas e órfãos, providenciou, não me pergunte como, porque nem eu entendo, já nos primeiros dias, que o bebê estava com ela, mais de 20 pares de calçados (de marcas caras e novos), calças, conjuntos, carrinho, andador, ... resumindo: tenho certeza que nem teus filhos, gêmeos, tiveram mais coisas do que ela tem. Fez um ano que ela está conosco, e nunca faltou nada.
Aquela criança, com o decorrer do tempo, e a convivência, começou a falar fundo no meu coração, lá na nascente dos meus sentimentos, e foi causa de tremendas transformações dentro de mim. A cada dia cresço mais neste amor que ela me dá. Deus é bom.
Ontem, passado 1 ano, haveria um encontro de oração na casa desta minha irmã. (Ela hoje mora numa casa nova, dela, comprada pela doação/amor/reunião de alguns cristãos) E quando eu acordei ontem pela manhã, eu disse pra Deus: eu vou fazer jejum em consagração ao encontro desta noite.
Fui trabalhar, e às 10h da manhã já havia um pequeno atrito na bateria dos caixas. Você chegou a dizer: “Sueli, o dia hoje vai ser difícil. Eu estou com dor de cabeça”. Eu orei em espírito e pedi: Deus, abençoe a Rosane. Uma voz dentro de mim disse: “Diz pra ela que o dia vai ser bom”. Toquei em teu braço e disse: “O dia vai ser bom, tu vais ver”.
Entrementes, estou montando um pequeno “mimo” para a agência, e precisava imprimir um texto que vou usar para tal.
Por volta das 13h o Djalma vem me alcançar uma cédula falsa, do meu lote de caixa do dia anterior. Eu relembro então do dia anterior. Revejo a correria desumana que o sistema da empresa tem nos imposto, no local de trabalho.
A Jordana comenta que temos que aprender a ver todos os lados da situação. Falei sobre o ocorrido com o chefe direto. Nada. Com o segundo: Ele me diz que nada pode me impedir de seguir/executar as rotinas da função. Que a responsabilidade é minha. Eu pensei: Ele tem razão. Só que lá dentro de mim eu me sentia injustiçada: Brasília (conjunto daqueles que repartem os 6 bilhões de lucro que as rosanes batalharam) determina, de um momento para o outro: Atenção agência (reduto de pausmandados): reduza à metade o quadro de funcis do Estilo: rosanes redobrem a correria, agora é para estenuar mesmo, é pra suar, é pros velhos cansarem e deixarem as cadeiras vagas para os genéricos; saiam da frente os lerdos/ corram as sueliscaixassubstitutas.... Uma voz desagradável dentro de mim caçoou: “Sueli, e é com estas pessoas que tu perde teu tempo orando e tentando falar que Deus é bom?”
Aquela pergunta interior me incomodou e eu cheguei mesmo a responder em voz alta: “Um ser humano é mais do que qualquer coisa. É mais do que o dinheiro. Mesmo que ele não se comporte como tal. Vou continuar, sim.”
Levantei e fui imprimir o tal texto, e nele a primeira coisa que li, dizia: “O Senhor é um alto refúgio para o oprimido em tempo de angústia”( Salmos, 9.9)
O colega Estevan, sensibilizado, assistia tudo, do caixa ao lado, com cara de Delegadosindical/sociólogoemformação/ateudeclarado. Porque as pessoas sempre se sensibilizam muito/demais com o problema das outras pessoas, mas esta sensibilidade dura no máximo 5 minutos, quando muito 1 hora, pois afinal, são muitas as nossas próprias preocupações.
Eu olhei pra ele, logo após ter lido o Salmo 9,9 e disse: “Hoje, Deus vai me fazer justiça; senta e observa”.
E tudo aconteceu de forma muito especial, como especial é o modo de Deus sempre agir com aqueles que esperam nele. Tu chegastes mesmo a me abraçar e agradecer, só que eu não sei exatamente o quê.
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Porque te escrevo todas estas coisas? Uma coisa é certa: Não é pelos R$ 50,00. Ontem gastei muito mais do que isto em doações.
Te escrevo pra te dizer que Deus é bom.
Ele nunca desistiu de mim, mesmo quando eu só olhava pra mim. Eu fazia vocês rirem, mas eu só via eu. Hoje eu vou trabalhar com um calçado que esquente os meus pés. E me basta.
O Jobim um dia comentava: “Não gosto de usar o banheiro em casa estranha, tendo em vista que geralmente só tem um.” Eu brinquei com ele: “Tu quer ser ateu. Na minha casa tem seis banheiros”.
Eu tenho tudo o que eu quero. Você pode pensar: Mas a Sueli se contenta com pouco. Pois eu te digo que eu sou por demais exigente.
Na reunião de oração, ontem à noite, eu falei sobre o ocorrido no trabalho. Não sei se foi pelo que falei, mas o fato é que o filho adolescente da minha irmã tomou uma decisão e disse: Eu também quero este Deus pra mim. Aceito Cristo, também.
Ele era o único filho dela que ainda não se convertera, e tinha o hábito de andar na noite, ter amizade com drogados, delinquentes, coisas assim.
Deus me mostrou que nunca desiste de alguém.
Nós desistimos das pessoas, de ajudá-las. Desistimos de nós. Desistimos de gostar das pessoas. De respeitá-las como gente. Mas Deus não é como um de nós.
Ele tudo vê. Porque vê o nosso coração. A Bíblia sempre se refere a Ele como sendo justo e fiel.
Analisa: Hoje, durante o café da manhã, nós tres à mesa (meu genro e eu tomando café, e a Emanuele escrevendo o nome das pessoas nos convites de casamento deles: fulano, fulano, fulano...e agora o mais “ungido”, disse ela, o convite do meu pai. Então me pergunta sobre como poderia escrever, se colocava o nome deles, ou escrevia “pai e família”
Eu disse: Escreva o nome, porque pai é uma atitude/ação/procedimento - o que ele não foi.
Relembrei então de como foi difícil lidar com o sentimento que me ligava ao pai dela. Era um amor tão grande, e como não terminava nunca, e me fazia sofrer demais, eu comecei a desenvolver um processo de rejeição àquele sentimento.
Com o tempo (mais ou menos 15 anos) e as tentativas, o tal sentimento foi como que sendo arrancado aos poucos de dentro de mim, mas quando ao sair levou junto também o que havia de bom em mim. Invisíveis faquinhas de serra vão nos cortando os nossos melhores pedaços.
Relembrei que passei um longo período de vazio/solidão/sepulcro dentro de mim, e de como Deus havia mudado este quadro, e de como tem me tornado uma pessoa capaz de sentir amor pelas pessoas novamente. Jesus chegou a dizer, e graças a Deus deixou escrito para que eu pudesse saber: “Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”. Deus tem a capacidade de trazer à existência aquilo que não havia. Aleluia.
Cheguei a comentar que geralmente são em períodos de crise existencial, como aquele, que as pessos se tornam usuárias de drogas, e que bom para mim foi o fato de que ninguém nunca me oferecera algum tipo de droga, pois eu estava fragilizada e a minha vida hoje poderia estar sendo outra. Minha filha então, com toda a naturalidade, comenta: Ainda bem que a vez em que eu e minhas colegas de aula saimos pra comprar droga, não lembro que impecilho houve e acabamos por não comprar. (Ela devia ter uns 10/11 anos).
Minha garganta apertou, e imediatamente agradeci a Deus, pois enquanto eu estivera anos e anos envolvida somente com minhas necroses, Deus cuidava para que impecilhos aqui e ali, fizessem dela a grande mulher/serhumano/batalhadora/responsável/incorruptível/sensível/humana/meiga/parceira/amiga/paupratodaobra/colaboradora/ajudadora/quefaznãomandanemesperaqueoutrosfaçam que ela é. Ela é um esteio de cerne. E carne. E amor. Salta aos olhos de quem vê.
Minha filha, hoje, poderia estar sentada em alguma escadaria de alguma rodoviária. E tem tão poucas suelis. E as poucas suelis são ineficientes e relapsas, fazem tão pouco ou quase nada, enquanto a cada dia novos corpos estão sendo jogados nas velhas escadas. Paralelamente, tenho visto novos e diferentes sapatos caros, cobrindo velhos pés inteiros; que carregam corpos de coração despedaçado, que caminham para lugar nenhum.
Até quando? Só enquanto as pessoas decidirem viver assim, porque Deus muda o quadro. Só Deus pode mudar o rumo para onde nossos pés nos levam.
Você entende o que estou tentando te passar?
Rosane, você é a principal meta de Deus. Desde a tua formação dentro da tua mãe Ele tem trabalhado para isto. Ele sobe e desce escadas, dá comandos em cadastros invisíveis aos teus olhos, te disputa o tempo todo com os bradescos/itaús concorrentes. Tu és o melhor cliente, pra Ele. E tu nunca paga as tarifas, tua conta tá devedora, Ele passa o tempo todo fazendo anotação de crédito, pra ti. O lucro que tu podes dar pra Ele é receber este amor que Ele tem por ti. Para. Olha pra tua vida, Rosane.Acorda. Deus é alguém vivo. Eu posso já não estar mais aqui, quando tu estiveres lendo isto, mas Ele estará. Eu creio que este momento é decisivo para chegares a tua fase ouro no sinergia de Deus. Na tua pobreza tu és Estilo, pra Ele. Por tudo isto dou graças ao Senhor, e posso dizer que hoje é dia de sol dentro e fora de mim, se assim posso comparar. Na Bíblia diz que o choro pode durar uma noite inteira, mas a alegria vem pela manhã. Jesus disse: Eu sou a luz do mundo.
Minha manhã é chegada. Eu não preciso mais do meu antigo tomate no nariz.Quem tem o sol dentro de si, não precisa de mais nada.
Vem pra Cristo, você também.
Suelisilvânia


Estevan, você ainda está aí?
Você está sentado?
Agora já é segunda (13/08). Eu estava pensando sobre tudo que escrevi e estava na cozinha, ia começar a fazer o arroz, mas passando pela mesa minha mão se estendeu automaticamente até uma maçã da fruteira, e naquele momento eu estava pensando: Vou escrever pro Estevan pra ele trocar seu curso para Química, Física e Biologia, se doutorar e depois vir falar comigo. A maçã caiu inexplicavelmente da minha boca, e eu pensei: “Ai, Senhor, eu não devo tripudiar sobre a falta de entendimento dele. Então uma voz dentro de mim me disse: “Só diz pra ele que Eu via a mulher sentada no chão, chorando, abraçada nos filhos enquanto as maçãs rolavam ladeira abaixo. Que as maçãs que eu escolho podem rolar quanto elas decidirem rolar, mas todas vêm parar na minha mão”.
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Lembra da nossa viagem de escavação antropológica?
Eu estive tempo demais deitada nas escadarias invisíveis de uma rodoviária que me levava para a morte. Jesus me tirou de lá. Deus nos fez pra andarmos de pé (e inteiros). Ele é a nossa bengala. Ele mesmo nos lava com seu amor e aquece nossos pés.
Deus é bom.
Eu não sei o que de especial/diferente pode ter na língua das mariposas. Nem entendo como acontecem as separações entre aqueles que se amam, como eu mesma não entendia, quando fiquei sozinha criando minha filha. Mas tem um versículo bíblico que eu gosto muito, e que diz: “Nem a morte, nem a vida poderá nos separar do amor de Deus”.
Repito: Deus é bom.
Levante-se, também. Esta escadaria não é pra ti. Vem banhar-se em águas vivas, que nascem na fonte que nunca seca.
Jesus te ama, e eu te amo também.

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