segunda-feira, 19 de maio de 2008

Alguém te empurrou?

Alguém te empurrou?
( para Nathalie, ao seu coração de estudante: Pode um cego guiar outro cego? )
O Brasil está bestializado olhando/lendo/ouvindo os meios de comunicação mexer e remexer sobre o caso da menina morta, empurrada pela janela, provavelmente por algum dos seus familiares.
E são questionamentos, explicações possíveis, motivos...causas... E é uma miscelânea de psicólogos, pedagogos, letrados, doutorados... É o intelecto, o cérebro à cata de respostas possíveis, visíveis. A gente quer entender tudo a partir do cientificismo.
Não há nenhum problema em querermos entender as coisas a partir do nosso processo pensante, a partir do que somos, que é o resultado das nossas experiências, das nossas vivências, dos cursinhos, das graduações, dos mestrados, dos doutorados que fizemos (baseados em conclusões de terceiros que estudaram/analisaram determinadas situações com seus próprios processos pensantes, e que através de um estudo meu, de uma análise minha daquelas idéias e conclusões resultantes dos cérebros daquelas pessoas, sobre aquelas situações específicas por ela estudada, aí então eu concluo as minhas conclusões, que serão só minhas) ...Ufa...só pra explicar isto já me pareceu cansativo.
Resumindo, a ciência funciona assim: Por exemplo: Freud observou uma situação específica ocorrida com ele mesmo. Então passou a fazer investigações sobre o fato: ele analisava sob um enfoque - e anotava as conclusões. Analisava sobre outro enfoque, tirava conclusões. Cruzava, finalmente as conclusões e formava um entendimento sobre aquela situação observada. (Veja bem: uma mesma situação possibilita N diferentes enfoques - a ciência é incapaz de esgotar todos).
Já fazem muitos anos que ele escreveu suas conclusões: atualmente os alunos de psicologia, em todo o mundo, sentam em suas salas-de-aula, começam a ler as conclusões “dele”, resultado/sobre “aquela situação específica”, naqueles enfoques específicos, de uma situação única, morta lá no passado, e que nunca mais se repetiu igual, nem vai, e começam a fazer análises e a cruzar estas análises e a tirar conclusões delas, dentro de suas cabeças, a partir daquelas observadas, ultrapassadas, petrificadas lá no passado e na vidinha do tal Freud. Como uma cópia, um plágio, uma imitação (Às vezes até boas, mas a maioria desbotadas e desfocalizadas, retorcidas, manchadas, borradas...sujas...diagonais...quadradas...)
Mas, para quem ainda não sabe, isso é fazer ciência (Eu não estou querendo dizer com isto que a ciência é nula, se assim fosse eu não estaria na minha terceira faculdade, eu estou te explicando que a ciência é feita assim, e assim feita ela, apesar de ser a coisa mais desenvolvida que se tem conhecimento, e apesar de servir para tirarmos algumas conclusões plausíveis, ainda assim ela é tão limitada quanto o ser humano é limitado, porque ela nunca vai te dar todas as conclusões possíveis, porque nunca vai poder analisar todos enfoques possíveis de uma mesma e determinada situação. Pois o ser humano por quem a ciência é construída - e ela é feita pela pequena parcela pensante, pelos melhores exemplares deles (outro equívoco da própria ciência, que os separa/isola dos demais, a partir de uma linguagem técnica e inacessível, colocando, ainda, diante dos seus nomes duas letrinhas “dr”, que cria um labirinto entre eles e os seres humanos “comuns” - a ciência ainda assim, é limitadíssima, na medida exata da limitação humana.
Você se escandaliza com isto? Então olhe para dentro de si: Você não se sente/parece limitado? A ciência tem a sua medida, porque mesmo que ela tenha acumulado conhecimento com o passar do tempo, o ser humano é humanamente limitado para acumular conhecimento e eu entendi isto quando compreendi a diferença entre ver, olhar e enxergar fatos. Cientificamente e no senso comum.
Nós entendemos/percebemos tudo à nossa volta a partir do tudo que temos acumulado como base de conhecimento dentro de nossas cabeças.
Não tem nenhum problema no que acumulamos dentro das nossas cabeças. O problema é o que fazemos com o que acumulamos em nossas cabeças.
“O temor do Senhor é o princípio do saber” (Provérbios 1.7)
A essência do nosso observar, o que conseguimos captar daquilo que olhamos, o modo como eu pego a informação observada e coloco/abro dentro do meu processo pensante, como eu a destrincho, como eu construo sobre uma base de observação dentro do meu cérebro, como eu uso minhas ferramentas de observação, os ângulos do meu foco de observação...se eu pego a informação como um todo, se eu pego em partes, se eu analiso somente o intrínseco, ou se eu relevo as extrinsicalidades, se eu relativiso... que tipo de análise eu faço? O que eu separo para aproveitar e o que eu rejeito e desprezo no ralo da minha memória. O que eu guardo para usar em momento oportuno, o que eu separo para usar no meu dia-a-dia, ou ainda o que eu coloco na vitrine dos meus prediletos para ficar admirando? me deleitando? E o que eu guardo como material ainda não analisado mas que eu vou voltar até ele mais tarde para fazer uma análise mais detalhada, porque agora as ferramentas que eu tenho (as chaves de fenda, as chaves de boca, minha furadeira...) não conseguiram abrir suficientemente as arruelas e parafusos que tem mantido fechado/inescrutável aquele foco de informação pra mim. Mas que eu vou dar um jeito de conseguir estas ferramentas, porque eu quero entender aqueles fatos atualmente inescrutáveis. Ou eu posso, também, arrebentá-los de qualquer maneira e posso perder a essência deles? Também tem esse detalhe... Eu posso eu mesmo estragar tudo usando ferramentas inadequadas, ou de forma incorreta. Eu posso ainda desenvolver ferramentas próprias e especiais...São inúmeras as possibilidades.
Veja bem: de tudo que nossos olhos vêem/observam, do que nossos ouvidos ouvem/escutam, do que nosso tato capta/toca, nosso olfato cheira... resultam informações que são levadas pelos nervos respectivos dos órgãos dos sentidos até nossa fábrica de processar informações, que é o cérebro, ou pelo menos deve ser. O que estou te passando foi processado pelo meu processo pensante.
Mas, note bem: ver e enxergar não é a mesma coisa, ouvir e escutar não é a mesma coisa, tocar e sentir são coisas completamente diferentes.
Se colocarmos numa sala de TV, assistindo ao noticiário da criança em questão: um juiz de direito, um pedagogo, um médico, uma mãe, um órfão, um pedreiro, um bancário...(crie você mesmo personagens para sentar nesta sala, use sua imaginação, que é o que eu estou fazendo com a minha. E usando a minha imaginação, consequentemente eu estou fazendo você usar a sua também - mas não com a intenção de fazer você pensar igual a mim, porque eu não quero e nem posso reproduzir meus entendimentos em ti, eu quero que entendas, com a sua cabeça, que os seus entendimentos é você mesmo que produz a partir de entendimentos de terceiros. Mas veja bem, você nunca produz sozinho: ele é resultado de tudo que os seus órgãos do sentido captaram, conduziram até seu processo pensante e deixaram lá: tá tudo lá - o que você fez com aquilo, e como você fez com aquilo, e o que tu permite que aquilo tudo faz contigo e de ti, É QUE É o “x” da questão). “Não sejas sábio aos teus próprios olhos” (Provérbios, 3, 7)
Bem, então está todo aquele “nosso” pessoal lá: o juiz, o pedreiro, ... ali na frente da telinha (maldita telinha - parece que tem uma super-bonder nela), de olho na “imagem” da criança jogada...
À nível de Brasil, são milhões de pares de olhos captando uma mesma imagem, mas com formas de captação específicas para cada par de olhos. Sem contar ainda que, como eu já disse: ver, olhar e enxergar tem quilômetros de diferença. Porque olhamos sempre sob nosso próprio foco: o juiz tende a olhar sob o enfoque da lei; o médico das doenças e curas; já o pedreiro vai fazer um cálculo do pé direito de cada andar para concluir a altura...
Agora, se deixarmos entrar nesta sala, uma pessoa cega/surda/muda e ainda, se ela quiser se inteirar dos fatos, ela vai precisar da ajuda de alguém que vai fazer o favor de ouvir e ver, no lugar dela, para ela (ajuda aqui, quer dizer: se o juiz dizer pra ela vai dizer de um foco a partir do legal; já nosso amigo médico vai passar a informação do seu ponto de vista medicinal, o pedreiro do seu, e assim por diante...) Então, conforme aquele que passar a informação pra ela, vai ser a base de informação que o suposto cego/surdo/mudo vai passar a ter, mas com as adaptações que a cabeça dele mesmo fizer, acaso ele queira fazer alguma, porque ele pode ainda, não querer fazer nenhuma adaptação, e usá-la do jeito que seu cérebro recebeu.
Eu disse anteriormente que olhar, ver e enxergar tem grande diferença.
Nosso eu, é o resultado, o produto acumulado do que temos/somos em nós mesmos; e como é este “nós mesmos”, é o que define como é, e como se dá este nosso eu mesmo: olhar, ver e enxergar que é específico em cada ser humano, é primordial, é a base da captação de material a processar para a construção do nosso eu mesmo, porque é a porta de entrada do nosso eu.
Note bem que para olhar podemos usar os olhos de outras pessoas, mas para ver precisamos ter muito mais do que apenas dois olhos; porém enxergar é somente para aqueles que querem ver.
O enxergar requer algo mais de nós. Requer base lá dentro de nós. Requer paredes já levantadas, alicerces, janelas construídas por nós mesmo, só nossos... Requer alguma construção própria. Estrutura própria formada.
Se você não se preocupa em criar dentro de si mesmo materiais próprios, conclusões exclusivamente suas, se você só pega emprestado do juiz, do médico, da “mídia” (se você vai só na carona), você está apenas olhando, talvez até vendo alguma coisa, mas você não está enxergando nada: você não desenvolveu ferramentas que te possibilitem enxergar. Porque enxergar é uma questão de querer ver. Você terá que desenvolver as ferramentas. Eu posso te emprestar meus olhos, eu posso dividir contigo o ver, mas eu não tenho como te dar o enxergar, porque ele não é transferível. É construção do indivíduo.
Freud, e todos os cientistas que lemos e estudamos nas universidades, eles, quando muito repartem contigo o que viram. O que eles enxergaram é único. Eu que tenho que construir o meu olhar . Ou se deixar construir o olhar em mim. Me permitir.
Não há ninguém que olhe, veja e enxergue igualzinho a mim, um determinado “fato”. Há semelhanças, há concordâncias, há cópias (quando eu tenho preguiça/incapacidade de pensar por mim mesma e me aposso de conclusões de outras pessoas, muitas vezes acabo usando equivocadamente porque nossos pensamentos e conclusões são peças únicas para se adequar a um quebra cabeça, que na verdade são as conclusões que chegamos sobre determinados assuntos, a partir dos pensamentos produzidos por nós mesmos), as cópias até se adequem - mas fica sempre uma fresta, uma aresta, que nunca se fecha por si só. Nunca.
Porque razão você acha que existe tanto caso de stress? tanta depressão? São os quebra-cabeças mal montados, efeito das cópias mal feitas, mal utilizadas, criando dentro das pessoas um “quadro” estranho, mal pintado, incompreensível, mal acabado, borrado, que a pessoa não sabe usar, conviver, se deleitar, se agradar, ficar a sós com ele mesmo. As pessoas querem correr de dentro de si para fora delas mesmas, porque não gostam do que vêem lá dentro, têm medo do que vêem lá. Ficam perdidas dentro daquela situação de desconhecimento, de descontrole: Elas dizem lá dento de si e para si mesma: “quero fazer assim”, só que aquele “quadro” desconhecido começa a não responder, ou a dar respostas trocadas, ou a dar respostas mal-educadas, ou a levantar a voz com elas.
E eu lhe pergunto: Existe algum lugar que se conheça onde possamos nos esconder de nós, quando nosso interior virou um leque de horror?
Apelamos para coisas que criam em nós uma falsa impressão de estarmos do lado de fora de nós; já que lá dentro se tornou um local desagradável e estranho, e que nos dão, ainda, a falsa impressão de controle daquele nosso eu que ficou trancado à sete chaves lá dentro: Estas coisas são as drogas, os alucinógenos, os vícios, as compulsões, as taras, os relacionamentos doentios, todos os tipos de dependência química e física e pscológica.
Então vem a droga: vou “viajar” um pouquinho para fora de mim, afinal aquilo lá dentro de mim já não sou mais “eu mesmo”, mesmo: que que tem? (porque afinal, não é o eu mesmo, que eu estou procurando, o que eu estou buscando é a sensação de ser eu mesmo, que eu não estou sentindo lá dentro de mim, mais). Então vem o “ficar”: vou sair de casa e vou achar qualquer um pra “ficar”, afinal não tô conseguindo nem “ficar” legal só comigo mesmo. Ficar sozinho comigo se tornou pior do que “ficar” com qualquer um, por pior que seja.
Mas, tudo bem, tudo bem... tá tudo bem comigo, tô legal... Tô nem aí...
Você mal vê a sexta-feira para se esconder de si mesmo, dentro duma garrafa; tomara chegar na nigth e encontrar qualquer um (que também esteja se escondendo de si) e procurando alguém pra se esconder junto contigo. Porque não?
Ou vou pro shopping, lá tem tanto espelho que eu não sei qual daquelas sou eu... e dai? Quem tá preocupado comigo? Nem tô.
Você aprende rapidinho a enganar a si mesmo, ao que sobrou de si. E você toca no teu ponto fraco e dá um comando pra si mesmo (leia-se si mesmo como sendo aquele pequeno pedaço “conhecido”, e que vem reclamar de ti, te chamar a atenção, te cobrar atitudes. Você diz: fique quieto, cale a boca, não opine: eu tô legal, não vem com este papo...tô ótimo. Nunca estive tão bem.
É bastante provável que dos milhões de pares de olhos que tem assistido ao caso da menina, a grande maioria deles pertença a pessoas que tem dentro de si arestas que nunca solucionaram, que cometam atitudes que nem se dão conta dos fundamentos, que precisariam de um aluno do Freud para tentar explicar-lhes alguma coisa sobre o “bicho” estranho que tem sido seu interior, a partir daquela situação secular vivida pelo Freud. (É claro que quando os amigos perguntam a nosso respeito, dizemos: eu tô bem... “Tô ótimo”- tem um colega que me responde todos os dias assim - mas pra ele sorrir é um parto...)
Não esqueça: enxergar é só para quem quer ver.
_________________________________________________________________
Quando nascemos, somos uma tábua rasa, uma página em branco, onde as pessoas ao nosso redor vão escrevendo, riscando, marcando, à medida que vão nos ensinando a falar, a caminhar, a nos vestir, a nos comportar, modo de sentar, de comer, de nos relacionar com as demais pessoas... Elas nos empurram “por estas janelas”. As vezes não sem antes nos sufocar com sua falta de amor por nós, com sua escassez de carinho durante seus ensinamentos, relapso este que vai nos fazer falta e vai refletir na nossa personalidade, mais tarde; no nosso modo de tratar e nos relacionar com as outras pessoas, porque a falta de amor é pior que a falta de comida: deixa nosso coração magro, esturricado e seco de amor para dar aos outros com os quais iremos conviver. Nossa nascente de amor fica doentia e produz sentimentos aleijados. Crescemos sem saber amar, também, e não sabemos como enfrentar isto, como corrigir isto.
Quando saímos das barrigas de nossas mães, somos iguais ao cego/surdo/mudo que entrou naquela sala de TV: precisamos dos familiares para nos mostrar as coisas. Todas as coisas. E criança não recicla nada do que lhe é passado. Criança assimila tudo, porque não tem ainda completamente formado seu processo pensante, assimila de um jeito “ïnacabado”.
Geralmente são nossos familiares que colocam/imprimem as primeiras bases em nós. É bastante provável que um grande número destes nossos familiares também tiveram suas bases formadas por familiares, que também os empurraram pra elas.
Nossos familiares nos passam também seus problemas, seus medos, suas dores. E a pior de todas as influências: passam seus credos, suas crenças, seus ocultismos (e todos os ismos que se tem notícia)
Porque a pior das manipulações? Porque cria na mente da criança e esta leva para sua fase adulta uma falsa impressão de “já sei”, quando na verdade ela não sabe nada.
Como o ser humano é um ser espiritual desde a concepção, e sua sua espiritualidade não é tratada à sério nem dentro da sua família, nem pela sociedade institucionalizada, a criança cresce crendo em tudo: boitatá, bicho papão, em imagens e no poder de imagens que na verdade não tem poder nenhum: uma imagem feita de barro tem o mesmo poder que um utensílio de cozinha feito de barro. Que efeito sobre o nosso espiritual, um prato de barro poderá ter?
É bem provável que vamos reproduzir tudo que aprendemos com nossos familiares, porque uma criança vê pai/mãe como alguém infalível. (Na juventude, quando percebemos que eles não eram assim tão bons, então nos rebelamos...mas aí é matéria para outra oportunidade).
Dentro de uma continuidade de aprendizado, após a família, vem a ação da sociedade instituída na forma de estado, através das instituições de ensino...mais adiante nosso setor de trabalho. Mas tudo tão suave, que nem percebemos que vamos sendo marionetizados, adestrados aqui e ali a recebermos todas as informações já processadas: não corra, não pise na grama, fale baixo, olhe pra frente, fique quito, faça assim, faça assado, isto é desse jeito...vista-se assim para pareceres assim, agora se quiseres demonstrar tal modo de ser, então vista isso... o cabelo faça assim, refri é Coca, celular é tal, chic é isto, zem é aquilo, etc, etc...Ah, e fique o máximo de tempo na frente da TV: isto vai completar a manipulação da qual tu já acostumou a sofrer, afinal tu não sabe pensar por ti mesmo, mesmo. E se ligue em futebol: vai ajudar a não pensar. Ligue-se em coisas que te livrem de pensar: pensar dá uma dor, um mal-estar, pois é teu quebra-cabeça começando a se ajeitar...
Nem nossos familiares, nem as instituições de ensino sabem tratar sobre nossas necessidades espirituais, porque o que aprendemos dentro da nossa casa e nas nossas escolas geralmente é resultado do cientificismo, e a ciência não pode explicar nossa espiritualidade, porque é impossível fazer ciência (que é empírica), com nossos espíritos, pois eles não são observáveis/explicáveis/comensuráveis a partir de uma observação dos órgãos do sentido: nosso espírito é invisível, imaterial, inodoro, e tudo que inicia com “ï”, porque ele não faz parte deste mundo que conseguimos perceber com nossos órgãos do sentido.
E chega um momento em que nos vimos como alguém que não conhecemos mais. E se você começar a encontrar dentro de si uma pessoa estranha pra ti, você tem um leque de opções: tem um tal de Freud, ai, que viveu há uns duzentos anos, e ao que parece sabe muito. Teus contemporâneos tem lido sobre ele, tão cada vez mais esquisitos, mas não tá tudo ficando tão esquisito, mesmo? Bem, pra não “esquentar”a cabeça (sinônimo de pensar), já pra frente da TV, fique de castigo lá.
Analogicamente falando, quando criança também somos empurrados pelos nossos familiares. Só que não vira noticiário de TV: ninguém “enxerga” nossa morte particular.
Eles nos matam sem perceber, e nós morremos aos poucos, mas numa boa.
_________________________________________________________________
De criança eu fui empurrada/iniciada em crenças como batuque, espiritismo, cardecismo, cartomante, zodíaco, a beijar santo, cultuar imagem, acender vela pro negrinho do pastoreio...eu buscava um deus, eu acreditava que tinha que existir um, que ele tinha que estar em algum lugar. E que eu ia achá-lo.
Mas não questionava nada, eu pensava “eu já sei”, pois como eu ia imaginar que minha minha mãe estaria errada? Que que tem ouvir horóscopo?(Omar Cardoso). Qual o problema de ficar tontinha com a cerveja e dançar com um cara estranho, sem me importar se ele era casado ou não? Não dá nada.Toda a minha geração fazia também. Meus colegas se drogavam no Campus da Ufrgs, mas eles eram tão legais, tão intelectuais, eles debatiam tão bem as idéias do Marx, do Keynes, do Aristóteles...mas andavam cambaleantes pelos corredores do Campus, com os olhos vermelhos e tristes, com seus quebra-cabeças quebrados...
E dentro de mim aquela sueli estranha, morando lá dentro: que saco, ela às vezes levantava mal-humorada e eu não sabia como suportá-la. Às vezes era uma sueli tão triste, que sentia um vazio tão grande e eu não sabia o que fazer com ela. Geralmente ela chorava sozinha, e eu sentia pena dela. Ela sentia uma solidão tão grande que ia até os ossos. Ela trabalhava tanto e era uma mendiga. Estudava muito, mas não pensava quase nada: mas copiava bem as idéias dos autores que lia - só não sabia o que fazer com as brechas, pois as idéias deles não se adequavam, nem se adaptavam com as dela. Era um recife de vazios, brechas, buracos negros...Não serviam pra nada.
Se alguém perguntava como eu ia: Tô bem, respondia (e não achava que minha resposta fosse mentirosa - eu pensava que aquilo era estar bem).
Um dia alguém me disse: Jesus nos ama, e tem mudado a minha vida.
Eu comecei então, a perceber que a pessoa que me dissera aquilo, estava mesmo diferente: eu percebi nela uma paz, um sossego que eu buscara em todo aquele leque de possibilidades e não encontrara em nada, nem dentro nem fora de mim.
Resolvi experimentar. Afinal, não devia ser pior do que o vazio dos finais de semana; do que a boca amarga depois do baile; do que o fedor de cigarro nos cabelos; do que a decepção de estar sempre sozinha quando precisava de alguém...Do que os olhos vermelhos dos colegas...
Foi a primeira vez que não me empurraram: fui por mim mesma. Eu não tinha mais pra onde ir, mesmo. Já tinha repassado tudo, e aquele quebra-cabeça dentro de mim cada vez mais complicado... Os autores que eu dormia e acordava lendo já não me respondiam mais nada: só desconversavam. Eu fui ficando sozinha com minha cientificidade: e ela era daquelas meio bobalhonas, mas que se achava a bolachinha recheada... Tava me cansando daquilo tudo.
“Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento” (Próvérbios, 3.5)
E não é que Jesus tem me dado tudo que eu sempre quis na vida? Todo mundo nos empurra, mas Jesus nos abraça: estar em Cristo não é uma posição geográfica, nem física. Não é uma forma nova de pensar. Um modelo de ação. Uma forma de vida alternativa. Um ponto de vista. Não é uma filosofia de vida.
É estar viva e com o quebra-cabeça completo, sem arestas. É mais que isto: é ser livre pra morar bem dentro de si mesmo, e não encontrar nada lá dentro que seja complicado ou estranho, pra ti. É gostar de estar ali dentro. Eu gosto daqui. Eu gosto de mim. Eu gosto das outras pessoas. Eu não tava nem conseguindo gostar das outras pessoas, antes...”Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo” (João 9,25)
Em Antropologia lia sobre os cristãos, pensava que eram loucos, sem conhecimento, pobretões, mal-amados. E foi bom ter estudado autores das Ciências Sociais que analisavam o que sou hoje, porque senão eu ficaria me achando incapaz de me expressar, e percebo que não são palavras que explicam as mudanças que meu Senhor Jesus faz dentro de uma pessoa completamente avessa como eu era.
Jesus disse, tão simples: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”(João, 10.10).
Nem Freud explica
Vem pra Cristo, você também
Suelisilvânia

Um comentário: